Frutas, Crianças e Ratos.

A Infeliz Necessidade do Absurdo 

 

Passeando pela internet mais uma vez, acabo encontrando varias reportagens sobre o uso deliberado de inteligência artificial por jovens de 12 a 15 anos.

O problema, em suma, é o mesmo: exposição infantil à internet, e dessa vez a conta esta no colo das Novelas das Frutas, que tem como personagens corpos humanoides com frutas no lugar da cabeça e nomes como 'Moranguete': geralmente a menina que trai ou que é usada de alguma forma, 'Abacatudo': o amante e algumas vezes o traído (karma?) e 'Bananildo', o beta. Eu mesmo já assisti a um desses slideshows animados, aqui protagonizado por um tomate favelado, que de tanto colher fracassos na busca por emprego, acaba ingressando na marginalidade. Uma historia com direito a plot twists e infinitas continuações mas que não me deu vontade de passar do primeiro vídeo, onde no final a fruta tem seu pai (que tenta mata-lo na cena anterior) morto e parte, sem esboçar o mínimo sentimento, para a próxima arapuca. Os temas abordados por essas novelas são aqueles já bem estabelecidos na sociedade brasileira, o principal sendo obviamente: A traição. É, existem frutas adúlteras nas novelas. Casais como Moranguete e seu marido Bananildo que, ao deixar sua esposa ir para a academia sozinha com seu personal Abacate, vulgo Abacatudo, contrai uma dor de cabeça dupla na parte superior da testa. Existem também roteiros de agressão, gravidez indesejada com direito a abandono do pai da criança e tudo mais que vemos por ai, tanto nas redes sociais, quanto pelo nosso bairro ou estado.

Os web jornais apontam esses vídeos como perigosos para os jovens, com psicólogos afirmando que isso pode ser prejudicial a saúde mental deles... eu me divido aqui. Concordo que, naturalmente, isso possa desencadear uma nova onda de pessoas desequilibradas no futuro. Os problemas apresentados nos vídeos podem sim ser normalizados pelos filtros, pelas frutas, pela infantilização do problema e é também natural que isso possa ser preocupante mas calma. Já vemos isso acontecer. Hoje, as Festas, ou melhor, Cultura dos Ratos em Recife (PE) demonstra que, ao escancarar um grande problema, podemos, literalmente, vê-lo. Não que haja comparação entre esgoto a céu aberto com música alta e traições com toques de misoginia mas apresentar problemas, arrombar a escotilha da hipocrisia e lançar um "periscópio sob o oceano do social" (A. Abujamra) pode nos apresentar uma nova faceta da sociedade, uma que ainda não aprendeu, ou pior: DESAPRENDEU a entender os seus semelhantes em decorrência da alienação, da mediocridade nos serviços básicos, do 'jeitinho brasileiro' que liga o ilegal ao dia-a-dia, as grandes preocupações do fim do mês e correria do inicio dele e por ai vai. 

Os vídeos são uma nova onda da internet e estão dando o que falar. No fim, espero que seja mais uma das centenas que nascem e morrem dentro de um período que, para a internet, é tão pequeno quanto a própria memória daqueles que as geram

revolucione-se. 

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